6ª Edição (2020)

Recordar é preciso

O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos

A memória bravia lança o leme:

Recordar é preciso.

O movimento vaivém nas águas-lembranças

dos meus marejados olhos transborda-me a vida,

salgando-me o rosto e o gosto.

Sou eternamente náufraga,

mas os fundos oceanos não me amedrontam

e nem me imobilizam.

Uma paixão profunda é a bóia que me emerge.

Sei que o mistério subsiste além das águas.

 

 

( Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2017, p. 11.)



A revista Mosaico - escritos e rabiscos do Núcleo de Pesquisa e Investigação Cênica Coletivo 22 - em sua sexta edição, comemorativa de 5 anos de existência,  apresenta o dossiê  Escritas de si - na encruza entre um Eu e o Nós, com o intuito de publicizar ensaios autobiográficos que evidenciem experiências individuais ou coletivas em grupos de estudo,  pesquisa e extensão, assim como em produções artísticas e em espaços educacionais, traçando reflexões dos desdobramentos para um eu ou para coletivo. 

Esta proposta nasceu do desejo em publicar ensaios autobiográficos produzidos por licenciandas do curso de Ciências Naturais da Faculdade UnB Planaltina (FUP), a partir de uma disciplina ministrada por uma de nós, Thatianny, editora convidada pela Mosaico e membro do conselho editorial.  Tal disciplina, ponto de encontro entre a docente e as discentes em questão, buscou trabalhar com questões e lacunas sobre raça e gênero nas ciências. Desses encontros em sala de aula, formou-se um grupo com quatro estudantes interessadas em seguir com os aprofundamentos teóricos e pesquisas. Após um ano e meio entre vivências da disciplina, reuniões do grupo de estudo, intervenções e pesquisas culminando com a escrita de um artigo,  surgiu a proposta e elaboração de texto para refletir sobre os momentos vivenciados na forma de ensaio autobiográfico. O desejo em publicar tais produções, junto à busca por locais adequados e possíveis para receber os ensaios, geraram também a percepção das dificuldades para a publicação deste tipo de produção em que o sujeito coloca-se na produção acadêmica falando a partir das próprias experiências, sobretudo considerando a experiência de discentes.

Estes processos vieram ao encontro dos desejos e interesses de pesquisa e publicação do NuPICC, que em especial no ano de 2020 acolheu pesquisadores e pesquisadoras dos Programas de Pós-graduação em Performances Culturais, Artes da Cena, Ciências e Matemática e dos cursos de graduação em Dança e Direção de Arte, para leituras, debates e reflexões sobre a própria produção do grupo e as pesquisas em andamento, de onde se pode observar as escritas de si, como um procedimento metodológico de reflexão sobre processos formativos e investigativos.

Assim, nesta 6ª edição da revista encontram-se escritos e rabiscos que constituem um mosaico de experiências vividas por estudantes de graduação e pós-graduação, artistas e de educadoras, que percebem nas investigações e nos processos de escrita caminhos significativos para rever a si. 

Assim, em uma encruzilhada entre participantes do NuPICC, as discentes da FUB e outras interessadas em escritas de si, o dossiê está estruturado em dois eixos: o primeiro que se refere a relações com arte e práticas culturais e o segundo sobre processo de tornar-se docente.

Na encruza do eu e do nós, chamamos para abertura dos caminhos a Mestra em Performances Culturais, Rafaela Francisco de Jesus, que destaca de sua dissertação de mestrado uma carta para sua mãe, na qual além de uma escrita sobre si, reflete sofre racismo e interseccionalidade, apresentando a sua mãe o feminismo negro, na perspectiva de Djamila Ribeiro. 

É igualmente atenta a questões raciais Lorena Fonte de Oliveira, compondo o primeiro eixo, a mesma reflete sobre sua trajetória na companhia artística Núcleo Coletivo 22, onde sua experiência com manifestações populares é potencializada e desemboca no mestrado em Artes da Cena, cuja investigação aborda o samba chula. 

Ainda neste eixo, o movimento junino no Distrito Federal é retratado a partir das histórias de dois integrantes de Quadrilhas Juninas e também graduandos do curso de psicologia no Centro Universitário do Distrito Federal (UDF). Sandy Luiza Pinto e Robson Nogueira de Carmo destacam como a dança, o movimento e as estratégias elaboradas pelos grupos em meio à pandemia em 2020 foram elementos  importantes para manter os cuidados consigo e também a esperança. 

Já no segundo eixo, os impactos dos movimentos, agora territoriais, foram elaborados e transcritos por Regina P. Santana.  As pontes atravessadas e caminhos seguidos pela autora que encontrou na escolha pela docência uma forma de estar neste espaço e tempo, olhando ao redor com lentes geográficas, olhando para si também a partir desses movimentos entre lugares. 

Nas escritas de Juliete da Paixão Vidal é possível ouvir sua trajetória cruzada, entrelaçada com trajetórias de outras mulheres negras. O encontro com essas narrativas é descrito pela autora como importante momento para refletir sobre si, incluindo também a dimensão profissional. Ter uma atuação docente que considere as contribuições dessas singulares mulheres em diversos campos, mas ainda para olhar para si e perceber-se de outros modos, capaz de ocupar lugares por tanto tempo negado. 

O ato de ouvir e aproximar-se das histórias de outras mulheres parece ter reverberado também em Sarana Nunes. Licencianda do curso de Ciências Naturais da FUP, ao conhecer e aproximar-se de mulheres cientistas percebeu a potência do movimento de reconhecimento de si enquanto mulher,cientista e professora, indicando suas buscas acadêmicas a partir destes reconhecimentos.

O processo de reconhecer a si, refletir sobre a própria trajetória a partir de outras histórias é também incidir em encontros familiares. Ketlin Cristina Mouzinho Santos, licencianda de Ciências Naturais da FUP, narrou como os aprofundamentos teóricos e escritas em contextos acadêmicos incidiram em reencontros com as trajetórias familiares, bem como no entendimento de que estes movimentos de descobertas e entendimentos são contínuos e conectados às diferentes áreas em que é possível estar , transitando entre as relações familiares e o trabalho. 

Ainda compondo o eixo que retrata as experiências de si para um tornar-se professora, Débora Cynthia Alves de Souza também licencianda do curso de Ciências Naturais da mesma universidade, relatou como foram as percepções sobre este ponto que entra e cruza as experiências do ser mulher, negra e cientista em formação. Suas buscas por questões de gênero, sexualidade e raça nas ciências, o destaque para importância da representação incidiu nas percepções da mesma quanto à potência da educação e da ação docente para refletir sobre tais questões.

Além dessas escritas de si, nessa edição a revista Mosaico lança a seção Visualidades, abrindo um espaço para imagem como lugar de reflexão, trazendo um auto-retrato de Zabelê Medina, jovem designer que também fez a capa da revista, olhar de Flávia Honorato, artista que gentilmente cedeu a foto da capa e de Thatianny Silva, editora convidada desse dossiê, fechando os trabalhos e trazendo para essa edição especial um pouco dos seus caminhos. 

A equipe do dossiê Escritas de si - na encruza entre um Eu e o Nós, foi composta também por Wellington Campos na diagramação, Jordana Dolores na revisão e Renata de Lima Silva como editora chefe da revista. 

Que essa encruza seja caminho de encontros.

Boa leitura!



Thatianny Alves de Lima Silva

Renata de Lima Silva

29/12/2020

 

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Foto: Encruza (2020), Flávia Honorato /Designer: Zabelê Medina