Poéticas transatlânticas: Mosaico, 10 anos de travessia

Poéticas transatlânticas: Mosaico, 10 anos de travessia

Renata Kabilaewatala*

Thatianny Mukongotawa**

Joana Abreu***

 

A revista Mosaico – escritos e rabiscos do Núcleo de Pesquisa e Investigação Cênica Coletivo 22 – completa, em 2025, uma década de existência, comprometida com a divulgação acadêmica e artística de temas de interesse do grupo, tais como processos de criação, poéticas afro-ameríndias, saberes e fazeres tradicionais, culturas populares, educação estética, estéticas da deficiência e processos pedagógicos. 

Em edição comemorativa de 10 anos – apresenta-se o dossiê “Poéticas transatlânticas”, em atenção a trânsitos e diásporas de pessoas e saberes. A partir do pensamento de Beatriz Nascimento (2022), a ideia de transatlântico, oferece uma chave conceitual para reflexão sobre a complexa constituição da diáspora africana nas Américas, especialmente no Brasil. Em seus escritos, Nascimento propõe que a travessia forçada do Atlântico não significou apenas o deslocamento físico de corpos africanos, mas também a migração de epistemologias, cosmologias e modos de existência. Assim, o transatlântico se torna um eixo de reelaboração cultural, onde o trauma da travessia se entrelaça com a possibilidade de reconstrução de mundos. 

O tema do dossiê, torna-se ainda mais relevante para a edição comemorativa, por também fazer referência à tese de doutorado “Poéticas Transatlânticas - devires entre a performance negra e a estética da deficiência” (2025), defendida por Rafaela Francisco de Jesus, integrante do grupo desde a graduação. Por outro lado, o programa de intercâmbio “Africanidades Brasileiras e Poéticas Afroameríndias – uma ponte entre Brasil e Moçambique”, encampado pelo NuPICC a partir do Programa de Desenvolvimento Acadêmico Abdias Nascimento,  da Capes, é outro convite para revisitar criticamente os caminhos do Atlântico, não apenas como rota colonial de expropriação, mas como possibilidade de reconexão entre povos e epistemologias. Nesse sentido, o projeto propõe uma inversão do movimento histórico: se outrora o Atlântico Sul foi atravessado de forma violenta, hoje pode ser trilhado como ponte de reciprocidade e construção solidária de saberes. 

A noção de terceira diáspora, conforme formulada por Goli Guerreiro (2010), reforça ainda que esses deslocamentos contemporâneos — físicos, simbólicos, estéticos e epistemológicos — não se configuram apenas como retorno ou repetição das travessias forçadas do passado, tampouco como simples circulação globalizada de bens culturais. Tratam-se, antes, de movimentos complexos de reinscrição e invenção, nos quais sujeitos produzem novas territorialidades, linguagens e formas de pertencimento, articulando memória, tecnologia, performance e política. A terceira diáspora, nesse sentido, desloca o Atlântico de um espaço exclusivamente marcado pela violência colonial para um campo de experimentação crítica, onde fluxos culturais e artísticos operam como estratégias de reexistência.

É nesse horizonte que o dossiê se inscreve, compreendendo as práticas performativas afro-diaspóricas como dispositivos de produção de conhecimento e de elaboração de mundos. Os textos aqui reunidos tensionam fronteiras nacionais, disciplinares e identitárias, afirmando o corpo — em suas múltiplas diferenças, inclusive aquelas atravessadas pela deficiência — e a cultura como arquivos vivos de saberes e de ancestralidade, capazes de mediar tempos, territórios e experiências.

Foi a partir dessas motivações que convocamos navegantes de múltiplos saberes a lançarem suas garrafas ao mar: gestos de desejo, escuta e partilha. Com isso buscamos alcançar vozes que cruzam oceanos, palavras e imagens que convocam memórias e experiências, que revelam presenças e territórios entrelaçados pela Kalunga — termo do kimbundu que condensa múltiplos sentidos, entre eles o próprio mar. Uma convocação às forças que pulsam nas bordas, nas fendas e nas marés.

Diante desse alcance aos diferentes navegantes, caberia aqui ainda indicar as águas nascentes que originaram este espaço e tempo, deste periódico. Em 2015, a revista Mosaico nasceu como um caderno digital de textos, sem a pretensão imediata de se constituir como um periódico acadêmico formal. Sua motivação inicial era registrar e fazer circular ideias, temas e debates que atravessavam o grupo de estudos NuPICC, então em processo de consolidação de sua inserção na Universidade Federal de Goiás e de aproximação com a pós-graduação. Desde a primeira edição, observa-se uma característica que se manteria ao longo desta década: a convivência, no sumário, de textos produzidos por estudantes de graduação com pesquisas desenvolvidas por pós-graduandos e docentes, afirmando uma política editorial marcada pela formação, pelo diálogo intergeracional e pela partilha de saberes.

É importante registrar, contudo, que até 2019 as edições mantiveram-se majoritariamente restritas ao formato textual e a produções diretamente vinculadas às atividades do próprio grupo ou à atuação de sua coordenação. Exemplos disso são a edição de 2017, composta por publicações resultantes do evento Interlocuções – Seminário de Pesquisa em Performances Culturais, articulado a uma disciplina ministrada no Programa de Pós-graduação em Performances Culturais, e a edição de 2019, dedicada aos Cadernos de Textos do V Seminário de Ensino e Pesquisa do Curso de Dança da UFG – Corpo, Som e Movimento. Esses números evidenciam um momento inaugural da revista, no qual o compromisso com o registro, a formação e a circulação interna de pesquisas se afirmava como eixo estruturante do projeto editorial.

Em 2020, por ocasião da sexta edição da revista, ano em que fomos atravessados pela pandemia de coronavírus — momento em que a comunicação digital se revelou ainda mais urgente e estratégica — a Mosaico: escritos e rabiscos passou a assumir, de forma mais nítida, os contornos de uma revista acadêmica. Instituíram-se, então, procedimentos como chamada pública, avaliação por pares, elaboração de capa e escrita de editorial, consolidando uma nova etapa do projeto.

Essa expansão, no entanto, não se limitou à adoção de critérios tradicionalmente acadêmicos. A revista também ampliou seus modos de expressão, abrindo-se às visualidades, às cartas, aos textos poéticos e a outras formas de escrita e criação, em consonância com as pesquisas em artes e performances culturais. As transformações não decorreram apenas do acúmulo de experiências ao longo de meia década, mas também da entrada de uma de nós, Mukongotawa, no NuPICC e no corpo editorial da revista, cuja presença contribuiu de maneira decisiva para sua profissionalização, diversificação e expansão editorial. Diante deste mar de boas lembranças e caminhos profícuos, abrimos passagem para esta edição comemorativa diante dos dez anos da Mosaico.

Desse modo, este dossiê propõe pensar a diáspora como um espaço em disputa simbólica e política, atravessado por práticas que reconfiguram os legados da colonização a partir de perspectivas afro-ameríndias. Ao reunir pesquisas, ensaios e criações que emergem desses trânsitos, a edição comemorativa reafirma o compromisso com uma crítica decolonial, atenta às continuidades e rupturas que constituem às possibilidades de imaginar futuros forjados na reciprocidade, na escuta e na invenção coletiva.

Com o intuito de descolonizar o olhar e os sentidos, iniciamos esta edição com a seção Visualidades. Nela, apresentamos, primeiramente, os olhares sensíveis de Alex Sander F. Santos, na série fotográfica “Xigubo — entre a guerra e a celebração”, composta por seis imagens. Em diálogo com essa proposta, integra a seção a fotografia Aparição, de Flávia Honorato, bem como a arte de Guatambu, que celebra a capoeira angola e destaca a presença fundamental das crianças como elo vivo da ancestralidade.

Para realizar a travessia rumo ao mundo das palavras, na seção Escritas Poéticas, deixamo-nos embalar pelo Diário de bordo, de Karinna Carla Carvalho de Menezes. Em seguida, aportamos na seção Cartas, aberta pelo a pelo Manifesto em travessia, de Glaucilene Ferreira Soares, bolsista do projeto “Africanidades Brasileiras e Poéticas Afro-ameríndias — uma ponte entre Brasil e Moçambique”, que, desde Maputo, lança sua garrafa no Oceano Índico.

Na sequência, Tata Kibuku Mungongo, da Tumba Inzo A’na Nzambi Junssara, escreve desde uma perspectiva muntu, afirmando, em sua carta, que “eu sou porque nós somos”, ao refletir sobre a roda do candomblé e o cuidado compartilhado como fundamentos éticos, comunitários e ancestrais da existência.

Ainda na seção Cartas, as missivas de Rosirene Campêlo dos Santos, doutoranda do PPGACT; de Stéfani Rosalem Mendes, mestranda do PPGAC; e do estudante de graduação em Teatro, Guilherme Sionilio, resultam de componentes curriculares ministrados por docentes vinculados ao NuPICC, no segundo semestre de 2026.

Inspirado no Encontro de Saberes (Carvalho, 2014)  — iniciativa interdisciplinar e antirracista lançada na Universidade de Brasília (UnB) em 2010 —, o referido componente curricular articulou diferentes níveis de formação e programas da UFG. Conjugou-se uma disciplina de Núcleo Livre, chamada Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais, voltada a estudantes de graduação de toda a universidade, com a disciplina Artes da Cena e pluriepistemologias: poéticas e pedagogias, oferecida pelo Programa de Pós-graduação em Artes da Cena, além de uma disciplina optativa em Performances Culturais, vinculada ao Programa de Pós-graduação em Artes, Culturas e Tecnologias (atual denominação do antigo Programa de Performances Culturais).

O enfoque do curso esteve na centralidade das pluriepistemologias e dos processos de aprendizagem compartilhados com mestres e mestras tradicionais. Nesse horizonte, o Congado brasileiro foi tomado como eixo de reflexão e de experiência pedagógica: uma expressão cultural afro-brasileira performática e comunitária, profundamente vinculada à presença bantu no território brasileiro e ao catolicismo popular, que articula canto, dança, ritual e oralidade como modos de resistência, celebração e transmissão da memória ancestral. A partir desse campo de práticas e saberes, o percurso formativo estabeleceu ainda, diálogo com as poéticas acessíveis e com os saberes das infâncias, ampliando as reflexões sobre pedagogias  e poéticas do corpo.

Como parte do processo avaliativo, as pessoas estudantes foram convidadas a escrever cartas dirigidas a diferentes destinatários, nas quais articulam seus aprendizados às próprias histórias de vida e aos seus interesses de pesquisa. Mais uma vez, no esforço de aproximar pesquisa e ensino, trazemos para a Mosaico esses trabalhos, que narram processos, deslocamentos e travessias na construção do conhecimento.

Na seção Ensaios, apresentamos trabalhos que emergem de parcerias entre docentes e discentes, desenvolvidas tanto no âmbito do ensino quanto da extensão universitária. Compõem esta seção os textos Nota introdutória de encontros transatlânticos, de João Victor Frazão de Oliveira, Aliu Baio e Marlini Dorneles de Lima; Sobre um tal cavalo que não era marinho, de Diovania da Silva Nascimento e Tainá Dias de Moraes Barreto. Contamos ainda com a colaboração da docente e pesquisadora da UFG Luciene de Oliveira Dias com o trabalho Conhecimento situado rumo a uma ciência Abya Yala.

A seção Artigos é aberta pelo texto Devir em poéticas transatlânticas, de Rafaela Francisco de Jesus, resultante de seu trabalho de doutoramento e inspiração direta para o tema do presente dossiê. Na sequência, apresentamos o artigo assinado por Teresa Manjate e Célia Adriano Cossa Mutevia, docentes da Universidade Eduardo Mondlane e da Universidade Pedagógica de Maputo, respectivamente. As autoras, colaboradoras do projeto de intercâmbio anteriormente mencionado, compartilham reflexões a partir da experiência com os primeiros bolsistas da iniciativa.

Encerrando a seção, o artigo DÁ LICENÇA AÊ! A influência do samba de roda da Serrinha/Batucagê na formação de uma artista-educadora em dança, de Eulane Souza Santos e Tainá Dias de Moraes Barreto, celebra a presença do curso de graduação Dança do IFG no NuPICC e nesta edição da revista.

Entre grafias, rasuras, rabiscos, visualidades e poéticas — mas também conceitos e proposições teóricas —, o dossiê Poéticas transatlânticas propõe pensar a diáspora como um campo de disputa simbólica e política, atravessado por práticas que reconfiguram os legados da colonização a partir de perspectivas afro-ameríndias. Ao reunir pesquisas, ensaios e criações que emergem desses trânsitos, a edição comemorativa reafirma seu compromisso com o enfrentamento a colonialidade do saber e se mantém atenta às continuidades e às rupturas que atravessam a experiência diaspórica e às possibilidades de imaginar futuros forjados na reciprocidade, alteridade e na invenção coletiva.

Referências

CARVALHO, José Jorge de & FLÓREZ, Juliana. “Encontro de saberes: projeto para descolonizar o conhecimento universitário eurocêntrico”. Bogotá, Nómadas [online]. 

2014, n.41.

GUERREIRO, Goli. Terceira Diáspora: Culturas Negras no Mundo Atlântico. Salvador: Editora Corrupio, 2010.

JESUS, Rafaela Francisco. Poéticas transatlânticas: Devires entre a performance negra e a estética da deficiência. Tese de Doutorado [Manuscrito, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2025. 

NASCIMENTO, Beatriz. O negro visto por ele mesmo: ensaios, entrevistas e prosa. Alex Ratts (Org). São Paulo: Ubu, 2022

Sumário

Visualidades

Xigubo - Entre a guerra e a celebração, de Alex Sander Fernandes Santos

Aparição, de Flávia Honorato

Criança Interior, de Guatambu

 

Escritas poéticas

Diário de bordo, de Karinna Carla Carvalho de Menezes 

 

Cartas

Manifesto em travessia, de Glaucilene Ferreira Soares 

Eu Sou Porque Nós Somos: A Roda do Candomblé e o Cuidado Compartilhado, de Tata Kambono Kibuku Mungongo

Carta Manifesto para a Máquina do Mundo, de Rosirene Campêlo dos Santos

Carta à minha mãe, de Stéfani Rosalem Mendes

Carta à minha bisavó, de Guilherme Sionilio

 

Ensaios

Conhecimento situado rumo a uma ciência abya yala, de Luciene de Oliveira Dias

Nota introdutória de encontros Transatlântico, de João Victor Frazão de Oliveira, Aliu Baio e Marlini Dorneles de Lima

Sobre um tal cavalo que não era marinho, de Diovania da Silva Nascimento e Tainá Dias de Moraes Barreto

 

Artigos 

Interculturalidade: entre a supervisão e a performance como paradigma na pós-graduação, de Teresa Manjate e Célia Adriano Cossa Mutevuia

Devir em poéticas transatlânticas, de Rafaela Francisco de Jesus

Dá licença aê! A influência do samba de roda da serrinha/batucagê na formação de uma artista-educadora em dança, de Eulane Souza Santos e Tainá Dias de Moraes Barreto. 

 

Equipe editorial:

Editoras: 

Thatianny Alves de Lima Silva (Mukongotawa)

Renata de Lima Silva (Kabilaewatala)

Joana Abreu Pereira de Oliveira

Marlini Dorneles de Lima

Rosirene Campêlo dos Santos

Gustavo Araújo Amuí

Renata Bastos de Sousa

Diagramação: Thatianny Alves de Lima Silva (Mukongotawa)

Capa: Thiago Limón

 

* Docente da Universidade Federal de Goiás, coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Investigação Cênica Coletivo 22, diretora artística do Núcleo Coletivo 22, capoeirista do Centro de Capoeira Angola Angoleiro Sim Sinhô e makota de candomblé angola da Tuma Inzo A'na Nzambi Junssara.

** Thatianny Mukongotawa, aracajuana em solo goiano, filha do terreiro Tumba Inzo A'na Nzambi Junsara, professora da UEG no município de Iporá da área de educação científica, membro do NuPICC, sensível a uma educação voltada para as relações étnico-raciais.

*** Joana Abreu é mãe, atriz e professora da Licenciatura em Teatro, do Bacharelado em Direção de Arte e do PPGAC, todos na UFG. É mestre em Arte pela UnB e doutora pelo PPGPC - FCS/UFG. Integra o Núcleo de Pesquisa e Investigações Cênica Coletivo 22 - NuPiCC. Coordena os projetos de extensão Teatro para Bebês na UFG e Encontro de Saberes na UFG. É coordenadora de gestão do Pibid UFG. Integra os grupos artísticos Teatro da Escuta, Samba das Águas e Boi do Rosário.